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Carlos Harfuch

Política e Economia

O Branco Pervertido

postado em 01/02/2016 12:13:48

Meus olhos são negros

Mas se parecem castanho-claros

Minha pele é negra

Mas se parece branca

Minha alma é negra

Mas há uma confusão aí

E me vejo branco.

Branco coisa nenhuma

Sou negro

Negro sempre serei.

Negra flor em noite de escuro luar!

 

Uma vez o Espírito do Dr. Hanneman me falou que iria reencarnar negro no Rio de Janeiro, na profissão de sempre médico, para cuidar dos desvalidos das favelas daquela cidade.

Eu assim a ele disse: “quero ir também...” Ele respondeu: “se Deus assim o permitir”!

Deus não permitiu, pois Hanneman já reencarnou negro, está no Rio de Janeiro, seu corpo físico deve ter por volta de cinco anos de idade agora, e eu aqui estou perfazendo tarefas que me cabem, segundo ordens superiores.

Hanneman é missionário eu apenas tarefeiro sou!

Às vezes me lembro do meu irmão de olhos azuis, minha tia de olhos azuis-marinhos, a outra de olhos verdes e loura e me perpasso cada vez mais negro em mim.

Minha filha recebeu o título de educadora por um doutor que foi meu orientador na UEM, hoje amigo do coração, porque ela se comove com seus alunos e alunas, sobretudo os desvalidos de cor negra ou parda, os traz para casa nos finais de semana, almoçam conosco e depois ela os entrega e as entrega em suas casas devidamente amados e amadas, respeitados e valorizados em suas peles negras mestiças, mestiçadas de um Brasil mestiço.

Ela se comove quando me conta que uma de suas alunas, doce e de voz quase sumida, a pede para levá-la mais cedo para casa porque ela tem um compromisso à noite com suas amiguinhas, ou quando pede para carregar seu celular com a delicadeza de uma criança que se viu enfim amada por sua professora.

São crianças de uma vivacidade incrível, flor e luz de uma cultura brasileira nata, gente que determina a força de um país que está além da cultura branca ocidental manipulada e manipuladora de massas, cultura essa que discrimina todas as outras raças e culturas, pois apenas a branca europeia pode prevalecer sobre todas as outras, poder esse de contexto dúbio excludente de um mundo ocidental de crônico preconceito.

Resultado 1: a sociedade manipulada “branca” se torna justiceira e abre amplo caminho para todo tipo de abuso contra os desfavorecidos, que em geral são os negros, sobretudo as mulheres negras que acabam recebendo abusos de toda ordem tanto dos seus iguais quanto das mulheres e homens brancos na sua sanha de “justiça” determinada pela elite dominante, branca por sinal.

A Lei, portanto, se torna ferramenta dos brancos para impor sua vontade a todos os outros e isso é chamado de democracia.

E nessa democracia branca a sociedade passa a entender que quem não estiver nesse contexto de leis é contraventor e precisa morrer.

Resultado 2: a televisão de segunda categoria tanto local quanto nacional e a imprensa marrom passam a explorar a criminalidade e incentivam a violência de parte a parte, e, coisa cruel, esses programas violam mais de cem leis estabelecidas pela própria sociedade branca de origem europeia.

Resultado 3: morre um policial e cem contraventores são chacinados para vingar a morte daquele outro e a guerra se instala no contexto mesmo do quanto pior melhor.

É claro que por trás de tudo isso há interesses misteriosos de reocupação de poder, onde o crime organizado tem seu lugar nessa estrutura de poder pobre e perversa.

Foi só se aproximar de um dos piores caciques da política brasileira dos últimos anos que o clima de guerra surda começou a se instalar no Brasil.

E eles só se tornam caciques porque são frutos desse sistema podre que domina não só o país, mas o mundo inteiro, pois quando uma bomba mata brancos europeus em Paris ou na estunidense europeia Nova Iorque a indignação é geral, mas quando chacinam pessoas em Beirute, Bagdá ou mesmo palestinos em Jerusalém esses são vistos como fatos normais e corriqueiros.

Nada é por acaso, mas tudo isso é fruto da perversão de um ego personalíssimo que não admite nada melhor ou maior que ele.

Voltando ao meu antigo orientador da UEM, ele lançou um livro que demonstra, por pesquisa de campo, que a criança negra não é menos inteligente que a branca na escola pública ou privada, muito pelo contrário, mas o que acontece é que ela vive dentro de uma cultura implantada, que não é de forma alguma a brasileira, mas, sobretudo, porque ela não recebe o devido afeto dos seus professores e professoras, afeto esse que é dado às largas às crianças brancas.

Aí a evasão escolar, tendo como consequência a marginalização e depois tudo isso que nós estamos presenciando, ou seja, só há espaço para os de pele branca em todos os setores, a começar pelo de trabalho, onde só se vê brancos e brancas ocupando cargos importantes nesse Brasil mestiço.

Vou reencarnar negro, analfabeto, desvalido de mim mesmo, sem título de nada, sem carteirada, apenas eu comigo mesmo, em amor e dor, mas sempre eu comigo mesmo.

Já falei para o Espírito de Hanneman e já pedi permissão a Deus para que minha próxima vida em corpo carne e sangue seja em tez negra como a mais negra flor sem luar em noite escura, pois negro sou, negro como meu negro Brasil sempre serei!

Carlos Harfuch – 2016 verão 

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