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Carlos Harfuch

Política e Economia

Marcas de um Passado

postado em 09/09/2015 12:14:24

Era uma noite soturna, Maria Antonieta estava prestes a dormir quando o castiçal caiu em seu colo e iniciou um processo de incêndio que ela interrompeu jogando sobre si a água contida na bacia onde há pouco tomara seu banho.

Pensou o quanto o Brasil era atrasado, pois em Paris seu corpo branco leitoso já estaria todo banhado em suaves colônias para dormir, banheira própria para banhos dignos dela, não aquele espaço da casa grande na fazenda do seu marido, mais feitor que marido, vazio da “chiqueza” parisiense de um Brasil ainda colônia perdido no lamaçal da sua própria sandice.

E ainda aquela tempestade cruz credo que só a assustava dia após dia e que ela julgava nunca iria se acostumar.

Até que ela gostava do Roque, sobretudo da fortuna dele, mas Roque era bicho brabo do mato, sem finesse nem recato, uma besta humana que só fazia copular com as escravas mais bem postas de curvas e reboleios, que ela nem ligava que ele atrás delas ia, pois até achava bom, até porque assim ele a deixava em paz para os seus devaneios e menina mulher ainda cheia dos encantos das vaidades e ilusões da sua meninice ainda mal formada menina crescida com jeito de mulher ainda a desabrochar.

Roque era homem velho para ela, pois nos seus 45 anos nem sabia como pegar de jeito aquela sua mulher menina de 19 anos, quase vendida pelo pai dela a ele, para angariar mais fortuna para a família, pois o pai de Maria Antonieta era rico comerciante e fazendeiro que só fazia ficar cada vez mais rico pelas bandas do Brasil.

O pai de Maria Antonieta se chamava Jacinto e por considerá-la muito velha empurrou-a para Roque, que por também almejar comendas importantes aceitou se casar com a filha do velho sovina “mandrigueiro”, malandro de soberba.

Jacinto mudara-se com a família para Paris quando a menina ainda possuía 9 anos e ela a Paris se acostumou, quando então foi negociada sem saber nem porque, sendo obrigada a voltar casada e sozinha para o Brasil no intuito de dona de casa ser, daquele traste que nem seu nome direito sabia soletrar.

Sacanagem do destino para uma “menina” como ela branca leitosa toda gostosa, apesar da idade, mas ainda nem de nada mulher sabia nem noção disso tinha ainda ser.

Roque quando ao lado dela se deitava todo suado das cópulas com suas escravas só fazia dormir, roncar e malcheirar o quarto que ela não suportava mais agüentar.

Chegou um dia que ela pediu sozinha no quarto dormir e ficar, no que Roque aceitou sem delongas, pois já nisso estava a muito pensando.

Paz para ela, vida noturna cheia de sortilégios para o pobre Roque mucambo mulambo de si mesmo, sem paz nem fronteira de dignidade para sua própria bestial vida viver em total desencanto do que poderia ser uma vida melhor e mais culta numa Paris sem igual, se comparado a um Brasil selvagem e sem noção de qualquer requinte ou refinamento.

Os anos se passaram, Maria Antonieta recusava terminantemente filhos com Roque ter, tanto que ele ao longo do tempo sequer a tocava, até porque seu interesse por ela era apenas o financeiro e ela suspirava ainda por uma Paris que cada vez mais ficava longe de si e dos seus ideais juvenis, envelhecendo naquele fim de mundo sem vida, sem oxigênio, para uma mulher de fino trato como ela, Maria Antonieta, luz e sombra de si mesma.

Roque de tanto viver aquela vida sem juízo e sem destino, morreu a mingua desvalido nos braços de uma de suas amadas amantes, que sem mais nem porque o jogou como lixo aos porcos do seu próprio chiqueiro na fazenda, próximo à Casa Grande.

Jacinto, o pai de Maria Antonieta, ao saber da inesperada morte do genro ficou tão sentido que conseguiu ficar cinco minutos em intenso sofrimento, que logo se tornou imensa e profunda felicidade, pois ficara ainda mais rico e poderoso do que já era.

Maria Antonieta se preparava para voltar a Paris quando, sem mais nem porque, chegou de Paris um dos seus irmãos, a mando do pai, para ver às quantas ia o que ele considerava um bom investimento em terras brasileiras.

Acontece que o irmão de Maria Antonieta trouxe com ele um biltre francês a tiracolo, moço bem formado e bem formoso que lá pelas tantas viu a vil oportunidade de seduzir a irmã do amigo, com o intuito de angariar algum se ela por ele se apaixonasse.

Dito e feito, ela por Pierre se apaixonou!

Pierre à época tinha seus 25 anos e Maria Antonieta já passava dos 30, isto é, quase 31 anos vividos naquela fazenda fim de mundo de Brasil.

O Brasil pode ser o que for, mas escola de safadeza se aprende é mesmo no Brasil, na rudeza do dia a dia da colônia vilipendiada por todo europeu metido a sabido e que se acha o dono da caçada!

Maria Antonieta usou e abusou do pobre Pierre e quando se fartou mandou o pobre coitado de volta a Paris sem eira nem beira, com o irmão que ela dominara por completo, que por tão dominado estar pediu arrego à irmã para não contar ao pai que ele engravidara uma das escravas da fazenda da irmã.

Ela muito cínica disse a ele que nada faria desde que ele patrocinasse sua volta à Paris junto ao pai, no que ele aceitou sem qualquer delonga.

Ao voltar a Paris, submissa, maltrapilha e maltratada, viu um pai velho e senil, no que não se fez de rogada, mandou o pai para o Brasil e passou a viver as delícias de Paris com suas mucamas.

Em Paris ela e suas mucamas fizeram estrondoso sucesso; tornaram ainda mais quentes as noites quentes, incandescentes de Paris.

Doce vingança!!!  

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