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Carlos Harfuch

Política e Economia

Dias Vividos

postado em 20/07/2015 08:30:50

Devia ser entre os anos de 1974/1975, nós brincávamos no rio Cubatão, que passa rente ao sítio da minha já falecida avó.

As águas do rio eram branquinhas, vêm do alto da Serra do Mar, e a correnteza nos levava caminho a Cubatão.

Com peneiras catávamos camarões nas bordas do rio e às vezes vinham tantos que sequer conseguíamos levar até o sítio.

A vida era farta, havia bananas maçã/ouro/prata, jaca, figos, frutas nativas e eu todo desajeitado que era vivia pisando em sapos enormes no meio da noite. Era uma festa sem igual e a vida era vivida aos borbotões.

Esse rio ao chegar ao complexo petroquímico de Cubatão sofria toda espécie de agressões das indústrias petroquímicas ali instaladas, levando ao mar uma água fétida e sem vida.

Algum tempo depois inventaram de construir uma tal “Via Imigrantes”, que hoje liga Santos a São Paulo e muitos dos pilares dessa via estão fincados justamente no sítio da minha avó.

Veio gentes de todos os lugares para a construção dessa via e depois de construída, por anos a fio, o rio ficou barrento e sujo, sem vida, sem nada de peixes ou camarões nativos, até hoje não se recuperou.

O caminho de Pilões, que ainda hoje dá acesso ao sítio da minha falecida avó virou favela e todos os abusos pensáveis se tornaram palco naquele lugar que um dia foi um paraíso.

Tardiamente o IBAMA entrou lá, pois ali se tornou reserva ambiental, mas recuperar mesmo que é bom, nem mesmo 1 metro quadrado daquele ecossistema foi recuperado ou resgatado.

Anos depois, já na década de 1980, no dia em que o Governo José Sarney implantou seu “Plano Cruzado” com o apoio incondicional dos “fiscais do Sarney”, aportei em Rondônia. Fiquei dois anos lá. Fui Funcionário Público da Prefeitura de Jaru e dono de Lotérica.

Lá a mata era imensa, o horizonte era talhado de um verde que virava mar, mar de mata, fantástico mar de um verde que para mim era um espetáculo quase que sobrenatural. Eu entrava em êxtase só de ver aquela amplidão sem igual, sem precedentes.

Eu tinha um corcel branco, carro valente que me levou até Jaru ao longo de 2.500 km bem rodados. Entrava nas linhas, que lá eram os acessos aos sítios e às vezes éramos eu, o carro e dois paus de ponte para atravessar e eu e o meu “corcelzinho branco” íamos loucamente por tudo aquilo.

Que loucura meu Deus! A gente era louco de tudo, mas acho que faria tudo de novo!

A mata é um mundo diferente, enquanto fora dali Sarney tentava recuperar a moeda brasileira, Estados Unidos e União Soviética se engalfinhavam, crise mundial como sempre houve, lá a paz era perfeita e eu fazia parte de tudo aquilo sem qualquer nível de esforço.

Na mata não havia bar nem restaurante, então comer teria que ser o que a mata nos dava e ela dava bananas maçã de altíssima qualidade, mamão ultra-doce, coco verde que mais parecia mato que coco, rios talhados de peixes, caça que trombava com gente de tanto que tinha e tudo isso era uma Rondônia Amazônica selvagem.

Fora da mata, porém, a população de Rondônia aumentava barbaramente, o “branco civilizado” chegava tipo ninho formigueiro e com ele veio muita miséria humana e tudo o que isso trás, dizendo que é progresso.

Que lástima! Rondônia mudou, eu mudei, mudei e voltei triste de volta ao Paraná, pois meu paraíso verde invadido havia sido pelo homem branco que o depredou e criou miséria naquele paraíso amazônico.

Em 1989 entrei para uma universidade, me tornei administrador, fiquei mestre, mas nada disso me fez feliz, pelo contrário, meu sonho azul ficou cinza, assimilei civilização, mas minha alma ainda está lá, nos paraísos por mim vividos em meus íntimos jardins, íntimos quintais!...

Hei de me resgatar, criar um paraíso dos desertos aqui e acolá construídos, e de mim e por mim hei de lutar bravamente pelo desenvolvimento da economia ambiental para este país e para o mundo inteiro!

- Carlos Harfuch é idealizador do projeto "Política com Ética",  confira seu trabalho em www.politicacometica.com.br.

 

 

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