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Imagem de: Carla Kühlewein

Literatura

Ser ou não ser Camaleão?

postado em 11/10/2014 20:42:13

O reino animal é repleto de figuras sinistras, algumas até exóticas, cujo comportamento se altera ora pela necessidade de se acasalar, ora para se proteger de algum perigo iminente (e não, não me refiro à espécie humana).

         A verdade é que uma boa parte das espécies animais altera a forma física para se defender de possíveis predadores, como é o caso do camaleão, réptil da família dos lagartos: assim que se sente ameaçado, camufla-se, ficando quase imperceptível.

         Não é a toa que a escritora, jornalista e editora Evelyn Heine selecionou esse réptil tão criativo como personagem de um de seus livros infantis, o COMIGO NÃO, CAMALEÃO!  Não é exatamente uma história... mas uma comparação engraçada entre o camaleão e a tia da narradora:

 

UMA HORA ELE É VERDE, OUTRA É AZUL.

CAMALEÃO MUDA DE COR QUANDO DÁ NA TELHA.

PARECE O CABELO DA MINHA TIA ELEONORA, UM DIA PRETO, OUTRO RUIVO, OUTRO CHEIO DE MECHAS LOIRAS.

 

         Acontece que como toda comparação, ao lado das semelhanças, as diferenças aparecem. No caso do texto de Heine, a diferença está na intenção da mudança de cores. Ao contrário do camaleão, que se camufla pra se proteger, a tia Eleonora muda a cor do cabelo para, sim, ser vista e muito bem notada.

         A narradora bem que tentou avisar dos perigos dessa mudança de cores desenfreada, contando para a tia o dia em que o camaleão caiu no rio e ficou azul, como a água, e ninguém o ajudou, já que não podia ser visto. No desespero ele encontrou uma solução:

 

QUASE MORREU AFOGADO.

QUE SUSTO, COITADO!

DAÍ FICOU COR DE LARANJA,

PRA CHAMAR MUITA ATENÇÃO.

O PATO VIU E DEU UMA MÃO.

E ACABOU-SE A CONFUSÃO.

 

         A esperança da narradora ao relatar esse fato era de que a tia repensasse sobre sua mania de ser camaleão. Qual nada, a tia pouco se importou com a lição de moral da sobrinha. E mais, tratou de ressaltar a própria filosofia de vida:

 

CONTEI ESSA HISTÓRIA PARA A TIA ELEONORA, MAS ELA NEM LIGOU.

DISSE QUE A VIDA É TRANSFORMAÇÃO... QUE NEM O CAMALEÃO.

 

         "A vida é transformação"... mas com qual intuito: se esconder ou se aparecer? As personagens do livro de Evelyn fizeram suas opções, aquele por puro instinto, esta por escolha mesmo (E a sua, qual tem sido?).

         Machado de Assis, o portentoso escritor do século XIX, já chamava a atenção em seus textos para a capacidade inata do ser humano de se transformar pela necessidade de sobreviver em sociedade. O uso das "máscaras sociais", às quais ele se refere, faz parte da conveniência social a que estamos todos sujeitos e da qual, (in)felizmente, não podemos fugir.

         Parece, então, que o processo camaleônico na tia Eleonora ocorre às avessas, pois não se trata de se engajar, mas de se destacar. Ora, há milhares de internautas ou meros transeuntes da vida na luta diária pela transformação. Seja para se camuflar ou para, ao contrário, se aparecer, ambas as lutas exigem dose extra de energia, não há como escapar: ser camaleão é laborioso.

         Há dois aspectos da vida desse animal "colorável" que ainda não foram mencionados: 1) possuem habitat variado (savana, floresta tropical, montanha, estepe e até deserto); 2) são seres solitários (pudera, a camuflagem não lhe permitira algo além disso, certo?).

         Não bastasse a versatilidade do réptil em se transformar, ele acumula ainda a capacidade de se adaptar a ambientes variados. O que lhe compromete, no entanto, a sociabilidade.

         Ora bem, socializar-se é o sonho dourado das personagens de Machado e o repúdio da tia Eleonora, que quer mais é se aparecer. É, portanto, nesse (des)ajuste que seguem por aí, às pencas, milhares de camaleões num esforço contínuo de alcançar ora a camuflagem, ora o destaque.

         Os camaleões engrossam a numerosa sociedade contemporânea, numa legião de seres paradoxais, que se empenham em atingir a fama, ao mesmo tempo que reivindicam o anonimato.

         Por via das dúvidas, há sempre a possibilidade de ser "acamaleão", nem lá nem cá, algo assim no entremeio que permita a qualquer um apenas ser, sem excessos ou reduções. Afinal, vida é transformação, sendo ou não, camaleão...

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