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Imagem de: Carla Kühlewein

Literatura

Sebo nas canelas

postado em 09/09/2014 11:52:51

“Sebo nas canelas!” é o que se costuma dizer quando é preciso apertar o passo, agilizar o expediente, fazer uma rápida entrega. A expressão vem da crença de se passar sebo de carneiro (uma espécie de gordura) nas canelas de corredores, a fim de que ficassem mais ágeis. A explicação é biológica: o sebo esquenta a pele, quando aplicado, por isso, quanto maior a velocidade da corrida, mais vento é produzido e, portanto, maior o alívio do aquecimento que essa substância produz.

Bem, não sei se você tem a mesma dúvida que a minha, mas... se o intuito é correr, por que ralhos não colocar o tal sebo nos pés? Seja como for, essa nossa parte do corpo, que nos garante a sustentação e locomoção diária, tem sido assunto de histórias e histórias. É o caso dos habitantes de Poscovônia, uma cidade criada por Eva Furnari, no livro ABAIXO DAS CANELAS. Se levarmos em consideração que o que temos “abaixo das canelas” são os pés, logo podemos imaginar o que virá dessa história de Furnari...

Acontece que os poscovinenses tinham um hábito: ninguém podia mostrar os pés! Então, era sapato pra todo mundo, o tempo todo, sempre, sempre. Somente os familiares mais próximos podiam ver os pés uns dos outros, fora isso, era proibido expô-los! Nem coçá-los na frente de outra pessoa era permitido. Havia, inclusive, todo um cuidado para se referir a essa parte do corpo:

PEDÚNCULO ERA A PALAVRA ELEGANTE E CERTA PARA CHAMAR AQUELE PAR DE COISAS QUE FICAVA NAS PONTAS DAS PERNAS. PATA, SAPATÃO, PRANCHA, ENTÃO, ERAM PALAVRÕES ESCABROSOS. SE ALGUÉM QUISESSE SER GROSSEIRO E OFENDER O OUTRO, XINGAVA DE PÉ-CHATO, PÉ-PELUDO, MEIASOLA, PÉ-DE-CHINELO, BICHO-DE-PÉ.

 

Assim ia a vida em Poscovônia, até que um dia, uma tal de “chulezite aguda” começou a afetar os “pedúnculos” de seus habitantes. Preocupados com a erradicação dessa nova moléstia, determinou-se que o professor Fausto, de Filosofia (e quem mais seria?), ficaria encarregado de conscientizar os alunos na importância de prevenir a tal doença (mania de achar que ser filósofo é explicar coisas!).

Até que um aluno, muito educadamente resolveu perguntar:

- PROFESSOR, POR QUE A GENTE NÃO PODE MOSTRAR OS PEDÚNCULOS?

Diante do constrangimento geral na sala, Fausto bem que tentou justificar o injustificável, mas na verdade, nem ele mesmo sabia explicar por que em Poscovônia era proibido mostrar os pés. Intrigado, filosoficamente foi buscar a resposta para essa pergunta. Foi quando encontrou nos livros uma pista: José Raimundo da Silva Couves, o habitante mais antigo da cidade. Ora, se alguém poderia dar uma explicação sobre o assunto, seria ele!

O filósofo foi ter, então, com o senhor das Couves. Papo vai, papo vem, e Fausto acabou descobrindo a origem desse hábito antigo, ao conversarem sobre a infância do distinto senhor:

- NAQUELES TEMPOS TODO MUNDO TINHA QUE ANDÁ CARÇADO, SENÃO MORRIA.

- COMO ASSIM, MORRIA, SEU ZÉ?

- ISSO MESMO. É QUE NESSE TEMPO ANTIGO APARECEU AQUI NA REGIÃO UMA ERVA RASTERIA DESGRAÇADA DE RUIM. ELA TINHA UNS ESPINHO DANADO DE VENENOSO. ESSA ERVA MARDITA COBRIU A TERRA TODA, INTÉ OS OLHO NÃO PODIA MAIS ARCANÇÁ. PARA NÃO ESPETÁ OS PÉ E NÃO MORRÊ ENVENENADO, NÓIS TINHA QUE ANDÁ SEMPRE CARÇADO. AÍ, MUITO TEMPO DEPOIS, AS ERVA DANINHA ACABÔ. O POVO INTÉ ESQUECEU DELA.

 

Pois é... não é preciso muito esforço para imaginar como o professor Fausto saiu intrigado daquela conversa. Afinal, essa sim era uma justificativa para o uso constante de sapato. PORÉM! Há tempos a tal erva daninha já havia sido exterminada, mesmo assim, os poscovinenses mantiveram o hábito. Por que motivo?

Venhamos e convenhamos, pelo mesmo motivo que comemoramos o aniversário, cumprimentamos as pessoas ou usamos roupa: HÁBITO! Bem, os habitantes de Poscovônia originalmente tinham a necessidade de usar sapato para sobreviver. O tempo passou, a necessidade sumiu, mas o costume fez com que o hábito fosse preservado. É o que se poderia chamar de “necessidade histórica” (uma espécie de necessidade que herdamos do passado, que ninguém sabe explicar por que, mas reproduzimos e pronto).

Como os poscovinenses, somos movidos a necessidades coletivas que regem nosso cotidiano, como: ser rico, eternamente jovem, estar sempre feliz, ter fama. E abaixo das canelas vamos escondendo tudo o que seja diferente disso...

Mas não se engane, a descoberta de Fausto, o curioso professor de filosofia, trouxe mudanças significativas para Poscovônia. Desde a revelação de seu Zé, os poscovinenses passaram a alterar seus hábitos, gradativamente, ao longo dos anos. Evoluíram para sapatos menos fechados, sandálias, até chegarem aos ousados chinelos.

Infelizmente nossas necessidades históricas estão muito além de uma solução tão prática quanto esta. Afinal, como é possível viver eternamente jovem, famoso, rico e feliz?  Enquanto não encontram a solução para estas necessidadezinhas básicas, seguimos correndo pra lá e pra cá, feito barata tonta.

Ou então, podemos correr na contramão (é sempre uma alternativa). Porém, cuidado! Para aguentar os trancos e solavancos dessa “vidaloca”, você pode precisar recorrer à boa e velha maneira de apertar o passo, no estilo poscovinense, e gritar com toda força: sebo nos pedúnculos!

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