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Imagem de: Carla Kühlewein

Literatura

PRESSA PRA DEPOIS!

postado em 24/10/2012 16:52:37

Nesse mundo atravancado de negócios, imagine-se entrando numa loja com produtos à mostra. Não se trata de artigos comuns, são relíquias, espécies raras, do início do século, que caíram em desuso. No hall de entrada há uma estante com três prateleiras longas, a perder de vista...

Na prateleira de baixo há uma série de artigos já bem usados e empoeirados, no centro da prateleira está escrito em azul, com as letras borradas: “TROCA-SE SMS POR CAFÉ DA TARDE COM AMIGOS”. Na prateleira logo acima, em estado de conservação duvidoso, o cartaz em vermelho anuncia: “COMPRE UM DESAFIO E GANHE UMA VITÓRIA!”. Na última prateleira, cheirando a mofo, há uma queima de estoque: “QUALQUER ARTIGO POR UM REAL”; nela estão: sonhos, fantasias, desejos, tão antigos quanto se poderia imaginar.

E aí? O que vai ser? Na dúvida, pergunte ao Oscarzinho, personagem da história MENINO DE NEGÓCIOS, de Ruth Rocha, um verdadeiro prodígio do empreendedorismo. Desde pequeno ele adorava fazer negócios. No início a brincadeira era até divertida, os pais se orgulhavam da esperteza do filho, mas depois...

ARRANJOU UMA CAIXA DE ENGRAXATE NÃO SEI COMO, E TODAS AS PESSOAS QUE VINHAM À SUA CASA VISITAR SEUS PAIS TINHAM OS SAPATOS ENGRAXADOS. E O DANADINHO COBRAVA!

OS PAIS FICAVAM UM POUCO ENVERGONHADOS, MAS OSCARZINHO DIZIA: “É BARATINHO!”. E OS PAIS DEIXAVAM PASSAR.

E não é que o menino levava jeito pra coisa? Desde pequeno gostava de brincar de lojinha e já se mostrava o rei da negociação. O tempo foi passando e a brincadeira virou mania. Foi engraxate, vendedor de suco de limão, vendia tudo o que via pela frente. Até a bicicleta da irmã ele alugava! Até que um dia...

(...) A CARREIRA DE NEGÓCIOS ACABOU DE REPENTE, QUANDO SEUS PAIS DESCOBRIRAM QUE OSCARZINHO ALUGAVA A IRMÃZINHA PEQUENA PARA AS MENINAS DO PRÉDIO BRINCAREM DE BONECA...

Assim acaba a história de Ruth Rocha. As reticências ao final da frase sugerem a continuidade dela, você consegue imaginar o que viria depois? Pois é... parece que tudo se inicia mesmo é no “depois”, afinal, quem nunca se pegou pensando: “Depois que eu terminar de estudar vou comprar um carro”, “depois desse mês vou viajar para tal lugar”, “depois das férias vou fazer isso e aquilo”.

O “depois” chega e tudo continua na mesma. Os pais de Oscarzinho ficaram esperando os “depois” do filho até não verem mais solução pra mania precoce do garoto. Em verdade, talvez fosse demorado demais para o menino entender que gente não é imóvel! Na preguiça de enfrentar a pressa, o talento de Oscarzinho deu no que deu: apelou para o mais fácil, alugar a irmã, oras!

O mundo anda corrido, tudo gira às pressas, por isso há uma tendência avassaladora em adiar o que se julga desnecessário, pífio, piegas, trivial. E em nome da agilidade são adiados sonhos, projetos, aprofundamento de relações, expressões de afeto, elaboração de pensamento, visitas... e uma lista interminável de “superficialidades”.

No mundo dos negócios não há lugar para pausas, esperas e não sei quê. Demorou? Sai da frente! Parou? Olha a fila atrás de você! O ditado mais que usado ecoa aos quatro cantos em alto e bom som: Se ficar a pressa ganha, se correr a pressa alcança. Haja fôlego!

Bem ao sabor dos eventos televisivos recentes, o negócio é travar uma luta com a pressa no ringue da vida. E disputar com ela, segundo a segundo, quem dará o próximo golpe: ela ou você?

Mas, cuidado! Não se engane com as histórias infantis da Ruth! Elas estão sempre recheadas de contestações e instigam as mais críticas reflexões. É essa voz crítica que emana de suas obras que tornam a mim, a você, a quem quer que seja, um sujeito mais ativo e pensante nesse planeta de tantos “depois”.

Afinal, quem nunca se sentiu como se estivesse sendo arrastado por uma multidão de Oscarzinhos vá correndo contar a Ruth!

Cá estou ao lado da pressa, tentado decidir quem vai vencer na próxima: Ela ou eu. Na maior parte das vezes nem chego a jogar o dado...

Sua vez de jogar!

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