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Imagem de: Carla Kühlewein

Literatura

CORAÇÕES ENGARRAFADOS

postado em 05/08/2013 09:40:13

De repente você “leva um fora” ou perde o emprego ou um ente querido... Que atire a primeira pedra quem nunca se viu com o coração despedaçado pela perda de alguém ou algo!

Numa sociedade em que se pratica o desapego a todo custo, é até curioso pensar que alguém se importe em perder já que ganhar (dinheiro, fama, poder) é a lei maior. De fato, sofrer pela perda é tão humano quanto errar ou repetir erros. Mesmo assim, há uma legião de seres ambulantes empenhados em usufruir de tudo e de todos, num espaço curto de tempo. A tônica é: VIVER INTENSAMENTE! E isso lá é possível? Sim, desde que haja uma maneira eficaz de neutralizar o órgão responsável pelas emoções humanas: o coração.

Oliver Jaffers no belo livro infantil O CORAÇÃO E A GARRAFA, escrito e ilustrado por ele, dá uma dica, que parece funcionar, a princípio. Trata-se da história de uma menina, como tantas outras, curiosa, que curtia a companhia feliz de seu pai: ATÉ O DIA EM QUE ENCONTROU UMA CADEIRA VAZIA. A cadeira vazia sugere o falecimento do pai, assim sendo, a menina resolveu tomar uma atitude frente à perda:

SEM SABER O QUE FAZER, A MENINA ACHOU QUE O MELHOR ERA GUARDAR O SEU CORAÇÃO NUM LUGAR SEGURO. SÓ DURANTE ALGUM TEMPO. ENTÃO, ENFIOU-O NUMA GARRAFA, PENDUROU-A NO PESCOÇO... E PARECIA ASSIM TER RESOLVIDO A SITUAÇÃO... NO INÍCIO.

Pois é, a reação imediata da menina foi recorrer ao que lhe pareceu mais adequado: livrar-se daquilo que lhe causava a dor, ou seja, o coração. É claro que isso é uma metáfora, está no sentido figurado, como se costuma dizer, “engarrafar o coração” é o mesmo que tornar-se uma pessoa cética, fria, calculista. A questão é: sua atitude foi imediata, porém atitude imatura de uma menina de pouca idade corresponde, veja só, com a postura de toda uma sociedade atual, severamente contaminada pelo vírus do imediatismo.

Jaffers não para por aí, assim que a menina toma essa medida algo lhe acontece, inesperado, por certo. No início, ao engarrafar o coração, parecia que tudo se resolveria:

MAS, NO FUNDO, NADA VOLTOU A SER COMO ERA. ELA ESQUECEU-SE DAS ESTRELAS... E DEIXOU DE OLHAR PARA O MAR. JÁ NÃO QUERIA SABER TUDO SOBRE O MUNDO E NÃO LIGAVA PRA NADA... EXCETO PARA O PESO... E À ESTRANHEZA DAQUELA GARRAFA. ALI, PELO MENOS, O SEU CORAÇÃO ESTAVA SEGURO.

Então a menina engarrafa o próprio coração para poupá-lo do sofrimento. Simples, rápido e seguro, tal como slogan de serviços online pré-pagos ou coisa que o valha. Mas num curto espaço de tempo as consequências se fazem sentir e a menina percebe que na pressa de evitar o sofrimento acabou agravando o que já sentia e somando a ele outras tantas tristezas, que geraram um imenso vazio.

Não se engane o leitor que isso acaba em tragédia! A menina de Jaffers consegue reverter o triste quadro de sua vida, mas foi preciso certa ajuda externa para isso... quem quiser saber qual foi, corra ler o livro! Antes que seu coração seja o próximo a parar numa garrafa!

A numerosa sociedade moderna desenvolveu vários mecanismos para engarrafar corações, todos disponíveis no mercado, a custo zero. É escolher, usar e abusar! Afinal, se o que interessa é o prazer imediato que o produto oferece e não a durabilidade dele, engarrafar o coração parece a medida mais acertada.

Porém, se esta não for a intenção, há que se quebrar o vidro e deixar o coração bater à revelia. No fim das contas engarrafar ou não o coração ainda é opção do freguês... vai uma garrafa aí?

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