Redes Sociais

Imagem de: Carla Kühlewein

Literatura

Chove Chuva

postado em 29/01/2014 13:15:01

E janeiro chove... a ponto de inundar carros, bairros, cidades inteiras. E no calor úmido do dia a dia ecoam as reclamações: "pra quê tanta chuva?" ou os alívios "Ainda bem que está chovendo!". E na costumeira lentidão "assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade", lembra Lulu Santos. Seja como for, o formigueiro se divide nas opiniões, mas numa coisa parece concordar, pode-se lamentar ou agradecer a chuva, mas não se pode fazer chover. Será mesmo?

Há rondando por aí uma série de especulações a respeito da existência de  centros de tecnologia avançados que literalmente "fazem chover". Sem imaginar isso,  a escritora Sylvia Orthof escreveu a peça de teatro: EU CHOVO, TU CHOVES, ELE CHOVE, que ganhou até prêmio de primeiro lugar! Já pelo título dá pra imaginar a bagunça que a Sylvia apronta nesse livro, pois que história é essa de "eu" e "tu" chover? quem chove é a chuva, não?

Bem, a Gramática da Língua Portuguesa avisa: verbos que indicam fenômeno da natureza, como "chover", não são conjugados na primeira e segunda pessoas, ou seja, "eu" e "tu"! Parece então que a Sylvia andou aprontando... É claro que esperta como só, ela tem lá seus motivos para enfrentar a dona Gramática...

Acontece que o personagem central do livro dela é um Pingo de Chuva que está louco pra chover. E lá vai Pingo preparar-se pra fazer chuva, mas não sem antes pedir permissão para o patrão, o chuveiro, um ser um tanto confuso e elétrico:

PINGO - ESCUTA, SEU CHUVEIRO...

CHUVEIRO -  O QUÊ? DINHEIRO? VOCÊ QUER DINHEIRO? NÃO TENHO! ESTOU COM ÁGUA NOS OUVIDOS, OUVIU?

PINGO: PUXA, O SENHOR NÃO ENTENDE O QUE A GENTE FALA!

CHUVEIRO - DINHEIRO PRA COMPRAR BALA? ORA, NÃO TENHO, ESTOU OCUPADO!

(...)

PINGO - SEU PATRÃO CHUVEIRO, POSSO TER LICENÇA PARA CHOVER HOJE?

CHUVEIRO - PON...PON... PON... PON... PON... ESTOU OCUPADO... PON... PON... PON... PON...

PINGO - SEU PATRÃO CHUVEIRO, POSSO CHOVER UM POUQUINHO?

CHUVEIRO - VOCÊ CONHECE TELEFONE? TELEFONE OCUPADO NÃO FAZ: PON... PON... PON... PON? POIS EU SOU CHUVEIRO OCUPADO: PON... PON... PON... PON...

PINGO - PUXA, PATRÃO É SEMPRE ASSIM: OU ESTÁ ZANGADO OU SURDO OU OCUPADO!

Nesse tom de conversa maluca, Pingo consegue autorização para chover, porém, como muito patrão abusado, o senhor chuveiro pede-lhe uma função extra:

 CHUVEIRO - MAS TEM UMA CONDIÇÃO DE PATRÃO: VOCÊ LEVA ESTA CARTA PARA A SEREIA QUE MORA NO FUNDO DA POÇA QUE VAI DAR NO FUNDO DO MAR. A POÇA FICA NO GALINHEIRO E O GALINHEIRO É DA GALINHA. ESTÁ TUDO EXPLICADO NO ENDEREÇO. CHOVE DEPRESSA E LEVE A CARTA PARA A SEREIA, OUVIU?

E assim Pingo vai entregar a tal carta para a tal sereia no tal galinheiro. Se ele consegue ou não e o que diz a misteriosa carta, só mesmo lendo pra crer na imaginação tão fértil da Sylvia. O que importa, no entanto, é observar um detalhe: desde quando pingo de chuva precisa pedir autorização pra chover? Afinal, ele não nasceu pra isso? Como se não bastasse a relação entre um chuveiro e um pingo de chuva, aparece outra ainda mais esquisita: a sereia, patroa, que faz uma cera na hora de mandar na ova de peixe, sua empregada.

Patrões de um lado, empregados de outro, não é difícil fazer a associação: o texto trata da dominação (e certo abuso) nas relações de trabalho, afinal, o senhor chuveiro elétrico é um tanto abusado pedindo para que o Pingo além de chover faça mais isto e aquilo. Porém Pingo parece estar guiado por aquela voz de fundo que grita insistente: "quem pode manda, quem não pode obedece".                 

Já faz tempo que a sociedade moderna aprendeu a respeitar patrões e desprezar empregados, nesse meio tempo o respeito que se deve ao manda-chuva normalmente é imposto e não conquistado. Porém, mesmo numa situação como esta, com empregado em desvantagem, de bolsos vazios e voz cheia de medo, Sylvia aponta a possibilidade de mudança. Basta observar que os empregados dessa peça começam a questionar a postura dos patrões: 

OVA - O SENHOR É MANDA-CHUVA É?

CHUVEIRO - SOU. VÃO TOMAR BANHO!

PINGO - DESCULPE, MAS POR QUE É QUE O SENHOR MANDA OS OUTROS TOMAREM BANHO E NÃO TOMA BANHO O SENHOR, HEIN?

CHUVEIRO - PORQUE EU SOU PATRÃO CHUVEIRO! CHUVEIRO NÃO TOMA BANHO, MANDA!

PINGO - POIS NA BAGUNÇA DESSA HISTÓRIA, ACONTECEU UMA COISA BOA: CHEGA DE CHUVEIRO QUE MANDA-CHUVA! CHEGA DE SEREIA QUE MANDA CERA! A COISA VAI MUDAR!

A partir desse momento a dominação perde sua força e Pingo conquista espaço para trabalhar com mais dignidade. Não fosse pela coragem de questionar sobre o que era ordenado a fazer, talvez ele estivesse até hoje pedindo autorização pra chover.  

Este será um ano de chuvas intensas em todo o Brasil, aqui, lá, acolá, no congresso... resta saber quem fará chover: eu? tu? ele? Bem que os pingos poderiam se unir numa grande chuva, para que enfim juntos possam dizer: CHOVEMOS!

Acesse: www.leiturinhas.com.br

« Voltar

Anteriores