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Imagem de: Carla Kühlewein

Literatura

Alice no país do pesadelo

postado em 06/05/2013 10:13:05

Não raros leitores já devem ter assistido à versão da Walt Disney do livro clássicode Lewis Carroll ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, que eternizou na memória de muitos a imagem da menininha loira, pálida, de lábios vermelhos, vestido azul e avental branco, perdida num país de figuras amalucadas.

Tim Burton, o diretor de filmes notáveis como “Edward mãos de tesoura”, “Piratas do Caribe”, o escabroso musical “Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da Rua Fleet” e outros tantos, bem tentou destruir esse esteriótipo com sua versão surrealista da história (em 2010). Ao que parece o filme de Burton emplacou, mas sua Alice amadurecida e nebulosa está longe de substituir a loirinha do bom e velho Walt Disney.

Na verdade não importa mesmo se desta ou daquela versão se vê o leitor mais influenciado, pois ambas as versões cinematográficas ficam aquém das inúmeras possibilidades de leitura que o texto de Carroll permite fazer. Não é preciso ir muito longe para perceber isso, vejamos... comecemos por uma cena presente em ambos os filmes: o clássico encolhimento e crescimento de Alice.

O livro original detalha que Alice tinha uma mania: a de fingir que era duas pessoas. Curiosamente, o país das maravilhas proporciona que ela realize essa destreza, encolhendo quando bebesse e crescendo quando comesse. Quando ela se vê diante de uma possibilidade concreta de “ser duas pessoas” começa a se questionar acerca de sua própria existência e se faz diversas perguntas:

 PUXA! PUXA! COMO TUDO ESTÁ TÃO ESTRANHO HOJE! E ONTEM AS COISAS ESTAVAM TÃO NORMAIS! O QUE SERÁ QUE MUDOU À NOITE? DEIXE-ME VER: EU ERA A MESMA QUANDO ACORDEI DE MANHÃ? TENHO A IMPRESSÃO DE TER ME SENTIDO UM POUCO DIFERENTE. MAS SE EU NÃO SOU A MESMA, A PRÓXIMA QUESTÃO É “QUEM SOU EU?”

 As várias perguntas que Alice faz pra si mesma é praticamente um exercício filosófico, que pode conduzir aos mais diversos caminhos e fazer “endoidecer” qualquer ser que as leve a sério. A partir do momento que a menina decide seguir o coelho branco sabe que não pode mais recuar, adentra no país das maravilhas e de lá não sai a mesma, como não poderia ser diferente.

Se logo no seu primeiro desafio da menina suas reflexões assumem um teor tão sério, imagine, caro leitor, o que tudo ela não pensou, ou foi levada a pensar, durante todo o momento em que permaneceu por lá? E pra quem ainda acha que a tal menina perdida foi “passear” pelo país de figuras estranhas, correndo o risco de perder a cabeça diante de uma rainha nada amistosa, apenas por pura necessidade de aventura, continuemos a exploração por esse país nada agradável...

Em dado momento no livro de Lewis Caroll Alice observa que o coelho branco que ela segue tem atitudes semelhantes aos de sua ama, Dinah. No entanto, o bichano peludo trata a menina como se fosse sua empregada. Ao tomar consciência disso, Alice mais uma vez fica reflexiva:

 - QUE ESTRANHO ISSO PARECE, - ALICE DISSE PARA SI MESMA, - RECEBER ORDENS DE UM COELHO! IMAGINE DINAH DANDO-ME ORDENS!”, E ELA COMEÇOU A IMAGINAR O QUE PODERIA ACONTECER.

- MISS ALICE! VENHA CÁ E APRONTE-SE PARA SUA CAMINHADA. - JÁ VOU EM UM MINUTO, AMA! MAS EU TENHO QUE CUIDAR DESSE BURACO DE RATO ATÉ DINAH VOLTAR, E VER SE O RATO NÃO FOGE.

- EU ACHO, - ALICE CONTINUOU, - QUE ELES NÃO IRIAM DEIXAR DINAH FICAR EM CASA SE ELA COMEÇASSE A DAR ORDENS DESSE JEITO.

 Observe que as reflexões aqui já não pertencem mais à existência de Alice, mas à conscientização da condição dela diante dos outros, no caso, a consciência de sua “superioridade” social, e a de sua família, perante Dinah no mundo real.

Longe de querer fazer uma análise detalhada de cada episódio do texto de Carroll, os “flashes” destacados apenas exemplificam o quanto adaptações cinematográficas deixam muito a desejar quanto ao conteúdo e real valor das obras originais.

Ademais, ir para um lugar em que se descubra que tudo o que se pensou ser verdade e normal, de repente não o é, não deve ser nada agradável, quiçá maravilhoso, ao contrário, é bem desmaravilhoso! E ainda... acreditar que tais descobertas tenham sido apenas fruto de um sonho do qual Alice desperta ao final da história é ignorar que tudo não passou de um real pesadelo. 

A grande “sacada” de Carroll está longe de ser transmitida por Burton, Disney ou por quem mais tenha se aventurado, ou se aventure, a levar Alice para os cinemas. A obra do autor inglês é única e permanece um clássico justamente porque trata de um assunto delicado, para crianças, jovens e adultos: crescer na medida certa. Nesse sentido nunca é demais lembrar que crescer na medida certa pode exigir várias noites mal dormidas e se transformar num pesadelo frequente, a que chamamos facilmente de: vida.

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